Portugal

Um roteiro por algumas Quintas essenciais

Sempre que viajo faço força para visitar vinícolas, e sempre tento visitar o maior número possível delas, o que normalmente gera alguns atritos com minha esposa que vê nisso um objetivo conflitante com o dela, de visitar o maior número possível de pontos turísticos. Após ter visitado cerca de duas dezenas de vinícolas, posso dizer que nenhuma visita é igual à outra. Sem dúvida existem visitas mais interessantes, outras mais burocráticas, algumas mais calorosas, outras frias e impessoais, mas a conclusão que chego hoje é que cada visita acrescenta alguma coisa às descobertas e aprendizado sobre vinhos.

Exatamente para potencializar essa diversidade de experiências, sempre que viajo tento mesclar visitas à grandes e pequenos produtores. Este não foi o caso em minha primeira visita à Portugal, onde tentei, em primeiro lugar, visitar o maior número possível de regiões produtoras e, em segundo lugar, visitar algumas daquelas Quintas que tanto aprecio e que são tão populares no Brasil.

As principais regiões produtoras portuguesas são: Bairrada, Porto e Douro, Alentejo, Península de Setúbal, Vinho Verde e Dão. Consegui visitar as quatro primeiras.

Bairrada – lar de Luis Pato

A região da Bairrada ainda é pouco conhecida mundialmente, mas vem ganhando grande notoriedade nos últimos anos. Um dos responsáveis por isso é o Sr. Luis Pato, que desde 1980 vem remodelando o cultivo e produção de vinhos com a uva Baga. Ela é hoje a estrela principal dos vinhos da vinícola, que apresenta um belo portfólio de rótulos feitos com grande esmero e habilidade. Dos espumantes, que harmonizam belíssimamente com o Leitão, prato típico da região, passando por brancos com grande mineralidade, tintos complexos e vinhos de sobremesa descontraídos, leves e adocicados (capazes de cativar qualquer não apreciador de vinhos), todos os rótulos mostram beleza e sofisticação, provando que ao se utilizar de boas técnicas de manejo e produção, é possível extrair grande potencial de regiões menos populares.

A vinícola está longe de ser uma daquelas turísticas, com uma grande estrutura para receber visitantes e horários padronizados. O que, naturalmente, torna a visita muito pessoal e calorosa. Sugiro fortemente o agendamento prévio, o que pode ser feito por e-mail ou telefone, tudo disponível no site luispato.com. A propriedade fica a 2,5h de Lisboa, 1h15min do Porto e 45min de Coimbra, e pertence à Rota de Vinhos da Bairrada, composta de outras Quintas, caso tenha a oportunidade de estender as descobertas na região.

Ao chegar, fui recebido pelo próprio Luis Pato, pessoa muito amável e simpática. Conversamos rapidamente sobre a safra de 2016, que estava em plena vindima, e o Sr. Pato citou um fato curioso: disse que todos os anos terminados com 6 são difíceis. 2016 não estava sendo diferente. Em seguida, Maria João, uma das adoráveis filha do Sr. Pato, e irmã de Filipa Pato, que também vem produzindo elegantes vinhos na região, conduziu o tradicional tour pelas salas de fermentação, barricas e pela prova de alguns rótulos. Durante a visita, fui cortejado com uma fotografia ostentando uma garrafa da safra de 1980, ano do meu nascimento e primeira safra de Luis Pato, época onde seu portfólio se resumia a apenas um rótulo. Infelizmente o presente incluía apenas a fotografia (que será utilizada em futuras publicações) e não a degustação da safra histórica, o que de qualquer forma não deixou de tornar a visita menos especial e marcante.

Espumante Maria Gomes

88 pontos

Espumante Informal 2013

91 pontos

Vinhas Velhas Branco 2013 e 2015

91 pontos (ambos)

Vinha Formal Branco 2013

91 pontos

Vinhas Velhas Tinto 2011

92 pontos

Vinha Pan 2013

92 pontos

Abafado Molecular 2010

92 pontos

(A avaliação completa dos rótulos degustados nas visitas poderá ser encontra no perfil do blog no Vivino ou na página inicial aqui do site.)

Porto e Douro – a potência dos vinhos secos e exuberância dos vinhos do Porto

O Porto e Douro é sem dúvida a região vitivinícola mais popular de Portugal. Originalmente, pelo mundialmente famoso vinho do Porto e, mais recentemente, pela extensão da fama aos vinhos secos. Digo mais recentemente pois o vinho do Porto começou a ganhar notoriedade mundial no século XVII, quando, após um embargo comercial aplicado aos franceses pela Inglaterra, os comerciantes ingleses recorrem a um novo fornecedor de vinhos finos secos e encontram em Portugal uma boa alternativa. Para proteger o vinho da desgastante viagem pelo rio Douro até a cidade do Porto e de lá até os portos inglesas, os produtores começaram a adicionar aguardente, como o Brandy, ao vinho para evitar que ele se deteriorasse. O resultado agradou ao paladar inglês, que passa a requisitar cada vez mais o novo estilo de vinho que acaba de nascer. Já o vinho seco, apesar de largamente consumido no mercado interno português, passa a ganhar popularidade mundial apenas nas últimas décadas, com a profissionalização e aperfeiçoamento da qualidade da produção.

Quinta do Vale Meão

Aproveitei a estada no Porto para conhecer um dos vinhos ícones de Portugal e que há tempos estava em minha lista de desejos: o Quinta do Vale Meão. A região do Vale Meão fica no Douro Superior, última região do Douro no sentido Porto – Espanha, após as regiões do Baixo Corgo e Cima Corgo. Parti da cidade do Porto e a viagem até a Quinta demorou cerca de 2,5h.

A visita à Quinta foi a mais íntima, calorosa e pessoal que já experimentei em todas as minhas viagens. A experiência foi de fato única. Chegando à propriedade, conheci o Sr. Francisco de Olazabal, atual dono da Quinta, e sua filha, Luisa, que iniciaram a visita nos contando um pouco da história da família. O Sr. Francisco é tataraneto de Dona Antonia Ferreira, célebre matriarca da Casa Ferreirinha, famosa marca portuguesa de vinhos (conheça mais sobre os vinhos da Casa Ferreirinha aqui) e também fundadora da Quinta do Vale Meão. A Casa Ferreirinha se tornou propriedade de um braço da família enquanto que a Quinta do Vale Meão passou de geração em geração até chegar ao Sr. Francisco e seus irmãos. Em 1994, o Sr. Francisco finaliza a aquisição das partes da propriedade pertencentes aos seus irmãos e se torna o único proprietário da Quinta.

Após conhecer mais sobre a história da Quinta, que se confunde com a própria história do vinho português no Douro, Sr. Francisco e Luisa nos apresentou os lagares de concreto, onde a pisa da uva é feita de forma natural e mecanizada, ao galpão e salas de amadurecimento, onde se encontram as barricas de carvalho que dão formas arredondadas aos vinhos, às salas de rotulagem e estocagem do vinho já engarrafado. Em seguida, Sr. Francisco nos levou em sua Land Rover por um passeio pelas colinas da propriedade, culminando em um pico onde encontramos uma pequena capela, construída em 1895, enquanto a Quinta tomava forma no coração do Vale Meão. A capela, assim como toda a propriedade e vinhedos, transpira história, de um tempo que se chegava ao Vale Meão após dias de viagem de barco, tempos em que a então moderna estrada de ferro ligando o Porto à região era ainda uma promessa.

Após a, digamos assim, visita técnica, Sr. Francisco, Luisa e sua mãe, Dona Maria Luisa, nos receberam para um refrescante vinho branco à beira da piscina de sua residência, situada à cerca de 500m da vinícola (acho que agora você começa a entender o motivo da minha afirmação: “a visita mais íntima, calorosa e pessoal que já experimentei”). Com uma linda vista para o rio e para as encostas recheadas de vinhedos, que deram à região do Douro o título de Patrimônio da Humanidade, fui apresentado ao Meandro Branco, rótulo produzido com as castas Arinto e Rabigato, as quais transmitem ao vinho um excelente frescor e aspectos tropicais.

Após algumas taças e petiscos, partimos para um divino almoço na sala de jantar da residência, quando conheci o Meandro Tinto, degustei uma pequena vertical do Quinta do Vale Meão (2014, 2011 e 2001) e finalizamos o pequeno banquete com o Porto Vintage 2008. Mas parecia que o Sr. Francisco ainda não estava satisfeito em nos agradar: não nos deixou sair da memorável e inesquecível visita sem uma garrafa do recém criado rótulo Monte Meão, monovarietal feito com a Touriga Nacional. Enfim, um dia para ser guardado no coração.

Meandro Branco 2015

Meandro do Vale Meão 2014

Quinta do Vale Meão 2014, 2011 e 2001

Quinta do Vale Meão Porto Vintage 2008

Quinta do Bomfim (Symington)

De volta à realidade, a próxima visita foi à Quinta do Bomfim, uma das Quintas do conglomerado Symington, dono das marcas Dow’s, Graham’s, Warre’s, Cockburn’s, Quinta do Vesúvio, Altano e Prats & Symington (P+S). Mais uma vez escolhi a Quinta do Bomfim à procura de uma degustação de um rótulo emblemático: o Chryseia (da P+S). Sua safra 2011, junto com o vinho do Porto Dow’s 2011, ganharam, respectivamente, terceiro e primeiro lugar na seleção dos melhores vinhos do mundo da revista Wine Spectator. Ledo engano. Os rótulos não faziam parte de nenhuma das diversas opções de degustação disponíveis para a escolha dos visitantes, não eram vendidos por taça ou mesmo garrafa.

A viagem do Porto para a Quinta do Bomfim foi um pouco mais curta do que para o Vale Meão, durou cerca de 2h. Visitas estão disponíveis em diversas línguas ao longo do dia, mas as opções não são muitas, portanto é interessante realizar marcação pelo site. Pode-se escolher que degustação realizar ao final da visita e há opções incluindo apenas vinhos secos, vinhos do Porto da marca Graham’s, da marca Dow’s, Portos Vintage, Premium Tawny e Premium Vintage. Os preços não são baratos, variam de 10 a 35 euros, portanto escolher diversas degustações torna a visita um pouco cara.

Uma simpática atendente nos conduziu pela visita, inicialmente nos apresentando à história da família fundadora da propriedade que veio a se tornar o conglomerado e aos primórdios da confecção do vinho do Porto na região. Em seguida, ao visitarmos os lagares de fermentação, pudemos presenciar a fermentação do Dow’s 2016 que acontecia nos tanques sob nossos pés.

Na sequência, pudemos presenciar os funcionários chegando dos vinhedos com os caixotes cheios de uvas da vindima que acontecia na época de nossa visita, colocando-as nos equipamentos responsáveis pelo desengaço e envio do sumo, através de bombas e mangueiras, para os lagares, onde são pisados por “pés” mecânicos, um equipamento desenvolvido pela própria Symington para simular a pressão e temperatura da pisa por pés humanos. Para finalizar a visita, conhecemos as adegas de amadurecimento, onde se situam as barricas de carvalho responsáveis por arredondar os vinhos do Porto da marca Dow’s, única produzida na Quinta do Bomfim (os demais rótulos são produzidos nas outras Quintas do grupo, fechadas para visitação). Como estávamos em grupo, pudemos selecionar três degustações diferentes: Douro DOC (vinhos secos), Vintages de Quinta e Premium Vintage.

Altano Branco 2015

90 pontos

Post Scriptum 2014

91 pontos

Quinta do Vesuvio 2012

92 pontos

Dow's Tawny 30 anos

93 pontos

Dow's Quinta do Bomfim Porto Vintage 2005

95 pontos

Graham's Quinta dos Malvedos Porto Vintage 2004

97 pontos

Warre's Quinta da Cavadinha Porto Vintage 2001

96 pontos

Graham's Porto Vintage 2000

97 pontos

Quinta do Vesuvio Porto Vintage 1995

94 pontos

Porto e Vila Nova de Gaia

Para finalizar o enoturismo no Douro, não pude deixar de conhecer algumas das caves de vinho do Porto na cidade de Vila Nova de Gaia, separada da cidade do Porto exatamente pelo rio Douro. Cerca de duas dezenas de caves estão disponíveis para visitação. Para muitas delas, basta entrar e aguardar o próximo tour. Algumas visitas mais exclusivas estão disponível perante marcação prévia. Apesar de ter uma tarde inteira para visitar as caves, consegui visitar apenas duas: a emblemática Casa Ferreirinha e um pequeno produtor, a Quinta dos Corvos. Visitei a Casa Ferreirinha no intuito de, além de conhecer rótulos de vinho do Porto nunca degustados, degustar também os vinhos secos do portfólio, que chegam ao Brasil caros demais ou nem dão as caras por aqui (conheça mais sobre o portfólio da Casa Ferreirinha aqui). Mais uma decepção: a degustação dos vinhos secos (assim como a degustação de vinhos do Porto nomeada Dona Antónia, a mais completa) está disponível apenas através de agendamento prévio, coisa que não fiz. Me restou o tour tradicional do vinho do Porto, que pode ser feito na modalidade Básica, que inclui o Porto Branco flagship da vinícola, Lágrima, e um Ruby Reserva, ou Premium, que inclui o Lágrima, um Tawny 10 anos e um Ruby Vintage. A visita tem o roteiro “turistão” tradicional: história da família, visita às salas das barricas e explicação sobre os diferentes tipos de vinho do Porto. Elas podem ser feitas em diversos horários, diversas línguas e não requer agendamento prévio. Mas vale enviar e-mail e questionar sobre os horários das visitas na sua língua de preferência.

Buscando contrabalancear a visita à um grande produtor, visitamos a cave da Quinta dos Corvos, propriedade ainda em posse de uma família portuguesa. A cave possui dimensões menores, o que faz a visita perder um pouco do fator entretenimento. Mas os vinhos eram notadamente mais elegantes que os rótulos de entrada servidos na Casa Ferreirinha. Paga-se 5 euros pela visita, valor que pode ser ressarcido caso compre uma garrafa.

Tentei ainda visitar a Sandeman, que possui uma das caves mais chamativas de Vila Nova de Gaia, mas já passava das 18h, horário de seu fechamento.

Ferreira Porto Branco Lágrima

89 pontos

Ferreira Porto Tawny 10 Anos

88 pontos

Ferreira Porto Ruby

87 pontos

Duas últimas dicas sobre o Porto: na Ribeira, região colado ao rio Douro, onde se estende diversos restaurantes e bares, encontrei o Bacchus Vini, pequeno wine bar, aconchegante e familiar, gerenciado pela Maria Fonseca, que mostra grande experiência com os vinhos e dá uma aula sobre vinhos do Porto. Na casa, são servidas tábuas de queijos e frios e basta ir até o porão para se deparar com inúmeros rótulos de vinhos do Porto, do Douro e outras regiões portuguesas, de grandes e pequenos produtores. Escolha seu rótulo e deguste-o de frente para o rio Douro. A segunda dica é o wine bar All-in Porto, localizado aos pés da Igreja dos Clérigos. O aconchegante bar possui carta de respeito, incluindo uma grande variedade de opções por taça. A casa não possui pratos elaborados, mas as tábuas de queijos e frios são muito caprichadas. O espaço é dividido entre o bar e uma pequena delicatessen, onde é possível encontrar algumas guloseimas e belos azeites.

Quinta da Romaneira 2009

Degustado em taça no All-in Porto

92 pontos

VT 2008

Degustado em taça no All-in Porto

93 pontos

Alentejo – origem do ícone Pêra-Manca

Depois do Porto e Douro, a região vitivinícola mais pulsante de Portugal é o Alentejo. A região merecia vários dias para conhecermos em detalhes suas características e para visitarmos um número representativo de vinícolas. Mas só tínhamos um dia, e a vinícola que não poderia deixar de ficar fora de nosso roteiro é a Cartuxa (na verdade, Fundação Eugênio de Almeida), produtora do rótulo de mesmo nome, facilmente encontrado por todo Brasil e que tanto aprecio. A vinícola também produz um dos rótulos ícones de Portugal, o Pêra-Manca (saiba mais sobre os vinhos da Cartuxa aqui). Portanto, a visita possuía essa agenda-oculta: degustar o emblemático rótulo.

A viagem até a cidade de Évora, onde a vinícola se situa, durou cerca de 1,5h, saindo de Lisboa. Ainda na estrada é possível mergulharmos no mundo do vinho português ao avistarmos os campos de sombreiros, árvore de onde se extrai a cortiça para a produção de rolhar. O Alentejo é hoje uma referência mundial na produção de rolhas de cortiça e um dos maiores produtores (leia mais sobre rolhas aqui). Por este motivo, inúmeros souvenirs são encontrados nas cidades da região feitos de cortiça ou fazendo referência a ela.

Inserir a Cartuxa no roteiro foi tarefa fácil, pois a patrôa, ligada nos passeios a pontos turísticos, estava empolgada para conhecer a bela cidade de Évora, pitoresca, medieval e recheada de atrações históricas. A visita à vinícola segue o protocolo padrão, se iniciando pela história da propriedade, passando pelo processo de elaboração do vinho, sala das barricas e finalizando com uma prova. Não foi difícil perceber que a procura por visitas é grande, portanto sugiro o agendamento prévio que pode ser feito facilmente por e-mail.

A história da propriedade se mostrou bem interessante, pois explica o trajeto até se tornar hoje uma Fundação, devido ao último proprietário, Vasco Maria Eugenio de Almeida, bisneto do fundador José Maria Eugênio de Almeida, falecer sem deixar herdeiros. A propriedade possui uma estreita relação com o Convento da Cartuxa, situado bem perto da vinícola. A vinícola em si fora a residência dos monges que frequentavam o Convento, até que em 1834 eles o abandonaram devido à extinção das ordens religiosas em Portugal. Cartuxa dá nome a um dos principais rótulos da vinícola, mas este não é o verdadeiro nome do Convento, que se chama Convento de Santa Maria Scala Coeli, de onde sai o nome de um dos vinhos tops da vinícola, o Scala Coeli. A Fundação possui hoje inúmeras atividades agrícolas espalhadas por diversas regiões portuguesas e, como Fundação, não possui fins lucrativos. Um panorama sobre tais atividades é apresentado em um vídeo durante a visita.

Boa parte da produção é hoje elaborada em uma nova adega situada no caminho para o Algarve, ao sul do Alentejo, mas a propriedade em Évora ainda é utilizada para hospedar os barris de amadurecimento, que também hospedam o emblemático Pêra-Manca. E para reforçar minha teoria de que nenhuma visita à uma vinícola é igual a outra, a visita à Cartuxa contempla um exercício bem interessante: fragrâncias que remetem aos aromas das principais castas portuguesas utilizadas na elaboração dos vinhos da casa são apresentadas em totens que descrevem as suas características. Da mesma forma como fazemos teste em perfumes de uma lojas, quando utilizamos aquelas pequenas tiras de papel, podemos exercitar a percepção dos aromas de uma forma bem particular e lúdica.

A degustação, que me pareceu preparada exclusivamente para o blog, apresentou três rótulos de azeites, Álamos, EA e Cartuxa, uma prova de presunto de porco preto, uma iguaria típica da região do Alentejo, e quatro deliciosos vinhos, ilustrados aqui embaixo. Infelizmente, o Pêra-Manca não era um deles, o que me levou a comentar a oportunidade que muitas vinícolas perdem ao não comercializar os grandes rótulos da casa por taça, ou, como já acontece em muitos Wine Bars mundo a fora, em taça de degustação (cerca de 50 ou 90ml). Provar os vinhos ícones das vinícolas enquanto visitamos seu local de origem tem o potencial de criar uma relação marcante entre consumidor e a marca. Tive esta experiência ao degustar o Almaviva enquanto visitava a Concha y Toro, no Chile, e posso dizer que a experiência se torna realmente emblemática. Fui então informado que o Pêra-Manca poderia ser adquirido, em taça, no Wine Bar da vinícola situado no centro de Évora. Aproveitei que o horário do almoço se aproximava e alterei os planos da tarde para podermos almoçar no Bar e, como quem não quer nada, degustar um dos rótulos que possui lugar de destaque na minha lista de desejos. Alarme falso! Com algum desapontamento, descobri, ao chegar ao Wine Bar, que apenas o Pêra-Manca Branco é vendido no local, não o tinto. Coloquei-o, então, de volta na minha lista de desejos à espera de uma nova oportunidade.

EA Branco Biológico 2015

90 pontos

Scala Coeli Branco 2014

91 pontos

EA Tinto Biológico 2015

89 pontos

Cartuxa Reserva 2012

92 pontos

Península de Setúbal – lar do doce Moscatel

José Maria da Fonseca

Possuo uma antiga memória com relação aos vinhos que com certa frequência me volta à mente. Em idos de 2001, em uma festa na casa de amigos, me fora servido o largamente popular Periquita e me recordo de o ter detestado. À época, não possuía a admiração aos vinhos que possuo hoje. Anos se passaram e voltei a me deparar com o rótulo em uma degustação de vinhos portugueses, quando relembrei em detalhes da experiência desagradável. Decidi dar uma segunda chance e descobri que o problema estava comigo. O rótulo é de fato simples, sem grandes atrativos, mas longe de gerar a ojeriza que tanto me marcou. Segui em frente e dei uma chance para o Periquita Reserva, que vem se mostrando, pelo menos na minha opinião, um dos rótulos largamente disponíveis no mercado com melhor custo-benefício, o que gerou até um post de “Boa Compra” aqui no blog. Em uma segunda edição do mesmo evento, engatei uma conversa com o representante da José Maria da Fonseca, produtora dos rótulos, e lá se foi metade das horas disponíveis para visitar algumas dezenas de estandes. Partindo do Periquita Reserva, pude degustar uma boa parte do portfólio da vinícola, incluindo um de seus ícones, o “J”.

Tendo um dia livre em Lisboa, não pensei duas vezes e incluí uma visita à José Maria da Fonseca. Situada em Azeitão, a cerca de 1h de Lisboa, a vinícola, em conjunto com a vizinha Bacalhôa, domina o cenário da pequena cidade. Dada a proximidade com a capital, a vinícola recebe um número grande de visitantes, me contou a atenciosa guia que nos acompanhou. Por isso, sugiro o agendamento prévio que pode ser feito por e-mail. Era um sábado, dia em que as visitas são mais curtas e não passam pela Casa Museu, parte da propriedade onde se pode vivenciar um pouco da história de seus fundadores e marcos que tornaram a vinícola um dos nomes mais conhecidos de Portugal. Porém, dado o agendamento prévio, fomos agraciados pela visita completa, acompanhada de uma degustação mais do que especial. Em uma enomatic com diversos rótulos, pude selecionar aqueles que ainda não conhecia, incluíndo o fabuloso Trilogia, Moscatel de Setúbal fruto do corte das três melhores safras da história da propriedade: 1900 (!!!), 1934 (!!) e 1965 (!). Para quem não conhece, o Moscatel de Setúbal é um vinho fortificado típico da região de Setúbal. Produzido com a tradicional uva Moscatel, alcança os 17 ou 18° e é apresentado na sua versão branca ou Roxo, este último produzido com uvas mais raras.

Quinta de Camarate 2014

89 pontos

Pasmados 2014

91 pontos

Domini Plus 2014

92 pontos

Moscatel de Setúbal Coleção Privada DSF 1998

Fortificado com Armagnac

91 pontos

Moscatel de Setúbal Roxo Coleção Privada DSF 1998

Fortificado com Cognac

91 pontos

Trilogia (1900, 1934, 1965)

Um corte das três melhores safras do Moscatel de Setúbal

93 pontos

Bacalhôa

Planejando um final triunfal para a viagem, fechamos o dia visitando a Bacalhôa, localizada também em Azeitão à cerca de 2 ou 3 minutos de carro da José Maria da Fonseca. Apesar do grande porfólio à venda no Brasil, ainda não tive a oportunidade de degustar muitos de seus rótulos e busquei resolver esse problema com a visita. Como a vizinha José Maria da Fonseca, a procura por visitas é grande. Enquanto estava na loja da propriedade, fazendo o meu check-in para a visita, vi o local ser invadido por dezenas de visitantes. Mais uma vez, o agendamento prévio é aconselhável, que também pode ser feito por e-mail. No caso específico da Bacalhôa, a visita padrão consiste na visita ao Palácio e à Quinta Bacalhôa. O Palácio da Bacalhôa, situado à cerca de 3 km da Quinta, percurso feito em carreata por todos os visitantes, é um casarão construído em 1480 pela mãe do rei de Portugal e atualmente propriedade de José Berardo, atual proprietário da Bacalhôa. A visita ao Palácio dura cerca de 1,5h e é muito agradável, mas possui pouquíssima relação com os vinhos da propriedade. A bela arquitetura, jardins, azulejos centenários, peças da coleção de antiguidades da família e histórias sobre Catarina, portuguesa que se tonou rainha da Inglaterra ao se casar com o rei Carlos II e criadora do hábito do chá das 5, tornam a visita animada, mas desapontante para quem procura conhecer mais sobre os rótulos da vinícola. Com excessão de um vinhedo situado no quintal do Palácio, o passeio representa mais uma visita a um museu do que a uma vinícola.

De volta à loja da Quinta, inicia-se a visita à vinícola, que também tem a duração de cerca de 1,5h. Ansioso para ver os tanques de fermentação, barris de carvalho e provar alguns dos renomados rótulos? Ainda não! Não antes de visitarmos as coleções de arte africana e arte nouveau, dispostas na entrada do prédio principal da propriedade. Entre uma coleção e outra, somos levados para uma rápida visita às salas dos barris e para assistirmos a um vídeo sobre as diferentes Quintas que compõem a Bacalhôa. De volta ao jardim situado à frente da loja, pudemos enfim degustar três rótulos, incluindo um dos carros-chefes da propriedade, o Moscatel de Setúbal.

Para quem esperava fechar a viagem com chave de ouro, a visita à Bacalhôa foi um pouco frustrante. De certa forma, um pouco devido a falta de alinhamento das expectativas. Enquanto esperava um mergulho nos vinhos da vinícola, fui conduzido a uma tarde de história e arte, e vinhos básicos e pouco excitantes.

Quinta dos Loridos 2015

87 pontos

Meia Pipa 2013

88 pontos

Moscatel de Setúbal 2013

88 pontos