Chile

França, Itália, Espanha, Portugal, Alemanha. O Velho Mundo é de fato a Meca dos vinhos, muita história, safras históricas, produtores e regiões de renome mundial. Mas também tem o euro, Real vezes cinco e passagens de quatro dígitos. Se está escolhendo um destino vitivinícolo para as próximas férias, por que não dar uma chance para nossos hermanos que vêm produzindo excelentes rótulos, alguns deles de performance marcante no cenário mundial?

O Chile está a apenas quatro horas de viagem de São Paulo, cinco do Rio de Janeiro, e vem despontando como um personagem de destaque na cena vitivinícola mundial. Gosto sempre de citar o caso do Clos Apalta, da Casa Lapostolle, como um grande exemplo da capacidade do Chile de produzir vinhos capazes de brigar de igual para igual com qualquer outro do Velho Mundo. Em 2008, a prestigiada revista Wine Spectator elegeu o Clos Apalta 2005 “Wine of the Year”, desbancando Grand Crus de Bordeaux, Sauternes, borgonheses, Barolos e ouros ícones mundiais.

Os Valles Chilenos

O Chile é um país de geografia ímpar, possui apenas 430 Km de largura mas 4.630 Km de norte a sul. À sua direita, podemos encontrar a Cordilheira dos Andes, uma das maiores cadeias montanhosas do planeta, e à esquerda o oceano Pacífico. Tal topologia fornece os mais diferentes climas, solos e altitudes para o cultivo de uvas, tornando possível a criação de diferentes tipos de vinhos, dos refrescantes brancos do Vale de Casablanca aos tintos robustos do Vale de Colchágua.

Na imagem ao lado são listados os 14 valles vitivinícolos do Chile. Alguns deles, como os do extremo norte e os do extremo sul, começam agora a quebrar as barreiras locais e começam a aparecer nas publicações internacionais. Particularmente, venho acompanhando os vinhos da vinícola Maycas Del Limari e, em especial os brancos, têm sido uma grande surpresa.

Sob o ponto de vista de uma viagem turística ao Chile, é possível conhecer diversos terroirs, vinícolas fantásticas e degustar o que de melhor o país tem a oferecer permanecendo na zona central do país. Nos preparativos para uma recente viagem ao Chile, tive dificuldade para encontrar dicas sobre quais regiões e vinícolas visitar. Acabei criando um roteiro na marra, buscando informações aqui e acolá, mas com muitas dúvidas se iria utilizar o meu tempo de forma eficiente. Acabei me limitando exatamente a esta zona central, viajando entre os Vales de Maipo, Casablanca, San Antonio e Colchágua. Fiquei extremamente satisfeito com o resultado e, não por acaso, acabei encontrando na “bíblia” Grande Larousse do Vinho um resumo sobre a atividade vitivinícola no Chile onde somente três destes vales visitados receberam algum detalhamento. Ou seja, o que de melhor acontece no país está de fato no eixo Santiago – Valparaíso – Santa Cruz.

Valle del Maipo

Santiago, capital do Chile e, provavelmente, destino do seu voo, está situada no Vale do Maipo. Diferente de cidades como Roma, Paris e Nova Iorque que demandam inúmeros dias para que se visite os principais pontos turísticos, Santiago é uma cidade com algumas atrações turísticas, mas não muitas. É possível conhecer os principais pontos turísticos em dois ou três dias, o que abre oportunidade para você reservar um ou dois dias para conhecer as vinícolas da região.

A vinícola mais conhecida do país, a Concha Y Toro, fica a cerca de uma hora de transporte público do centro de Santiago (o site da vinícola fornece detalhes de como chegar). A Concha Y Toro é mundialmente conhecida, muito pelo seu rótulo mais popular, o Cassillero del Diablo, mas possui muitos outros vinhos de renome e de melhor qualidade. Os rótulos Don Melchor e Almaviva (cuja safra 2011 ganhou 95 pontos no Guia Descorchados 2014), produzido pela vinícola de mesmo nome fruto da joint venture da Concha Y Toro com o grupo bordolês Baron Philippe de Rothschild, são motivos suficientes para uma visita à vinícola.

Em minha visita, optei pelo tour “Marques de Casa Concha”, que é basicamente o tour “Tradicional” acrescido de uma degustação de quatro vinhos da linha de mesmo nome. Ao longo do tour Tradicional, é apresentada uma plantação-vitrine, onde é possível caminhar por entre uma pequena plantação contendo vinhas das principais castas utilizadas na vinícola. Em seguida, você é levado a conhecer uma das adegas da vinícola onde é contada a história que originou o nome do famoso rótulo “Cassillero del Diablo”. Para tal, a vinícola prepara um pequeno show, com alguns efeitos especiais. Não espere nada à la Disney, o show é simples e limitado, mas nenhuma outra vinícola apresenta algo semelhante. Para os viajantes em família, é o máximo de diversão que as crianças terão. Ao longo do passeio, há paradas para a degustação de alguns vinhos mais simples.

O tour na Concha Y Toro é o mais “turistão” de todos: muita gente, instalações artificiais e um protocolo de visita quase industrial. Não espere conversar com algum membro da família ou um enólogo da casa sobre detalhes do cultivo das videiras, técnicas e detalhes da produção dos vinhos. A coisa toda é bem comercial. Mas existe uma detalhe que só a Concha Y Toro tem, em comparação com as outras seis vinícolas visitadas: ela é a única onde se pode degustar todos os vinhos da casa por taça. No restaurante da vinícola é possível degustar todos os tops, incluindo o Amelia (branco), Don Melchor, Almaviva e Epu (segundo rótulo da Almaviva, 2011 93 DS). Em nenhuma outra vinícola que visitei encontrei os melhores vinhos servidos em taça, o que se apresenta como uma excelente oportunidade para você os conhecer e degustá-los sem ter que comprar uma garrafa inteira, que pode ultrapassa a barreira dos R$400. O restaurante oferece algumas degustações já montadas, mas, naturalmente, você pode criar a sua degustação pessoal, requisitando os vinhos que desejar por taça tradicional (cerca de 150 ml) ou por taça de degustação (50 ml). Só mesmo por causa desta facilidade foi possível realizar uma degustação vertical do Don Melchor, onde quatro safras diferentes puderam ser conhecidas e apreciadas.

E se você ainda não está suficientemente convencido, o Guia Descorchados 2014 apresenta alguns motivos extras que tornam a visita à Concha Y Toro um programa obrigatório:

  • 5 vinhos na lista dos melhores tintos do país
  • Dois rótulos na lista dos melhores syrah
    • Gravas 2010, 94
    • Terrunyo 2012, 94
  • O branco top da vinícola, o Amelia, ganhou 93 pontos para a safra 2012
  • 93 pontos para o Marqués de Casa Concha Sauvignon Blanc 2013
  • 92 pontos para o Terrunyo Riesling 2012

O vinhedo e bodega da vinícola Almaviva fica a cerca de 20 minutos de taxi da Concha Y Toro. A visitação tem um preço mais salgado, cerca da USD80, incluindo uma degustação do Almaviva. Não cheguei a ir na vinícola, portanto não posso dar mais detalhes. Mas, como disse anteriormente, se o seu interesse é apenas apreciar esse ícone chileno, o restaurante da Concha Y Toro já lhe fornece tal oportunidade.

Outras vinícolas de expressão nacional também estão presentes no Vale do Maipo, como a Cousiño-Macul, Santa Alicia, Santa Carolina, Santa Rita, Undurraga e Viñedo Chadwick. Destas, apenas a primeira fica perto de Santiago de forma a se chegar utilizando transporte público. Para as outras, assim como para a viagem pelo resto do país, alugar um carro é uma boa pedida. Dirigir pelo país é bem tranquilo, as estradas dão um banho nas do Brasil. Procurando por locadoras locais, você poderá encontrar preços bem convidativos.

Antes de se despedir de Santiago, não deixe de fazer uma visita ao bar de vinhos Bocanáriz. A casa possui uma carta de vinhos respeitável e é o paraíso para os que estão à procura de novas experiências entre os vinhos chilenos. Ao invés de pedir uma garrafa, experimente dezenas de rótulos pedindo vinho em taça de degustação. A casa sugere algumas degustações, inclusive harmonizadas com um jantar esperto, mas fique à vontade para deixar sua imaginação e curiosidade guiar seus pedidos. Na ocasião, fui atendido por uma sommelier brasileira e não perdi a oportunidade: complementei o jantar, harmonizado com cerca de cinco vinhos, com degustações adicionais, todas sugeridas por ela e acompanhadas de explicação sobre a família produtora, especificações do solo e clima que influenciavam o vinho. Uma experiência fantástica! Só não espere encontrar este tipo de bar e vinhos em taça de degustação por todo o Chile. Após um começo de viagem empolgante, acabei descobrindo que o resto do país funciona de modo mais tradicional: cartas razoáveis, meia-garrafas e taças de 150 ml. Você pode comprovar isso em um outro bar/restaurante que também merece uma visita: Baco. O restaurante tem uma boa cozinha e cerca de dez vinhos em taça listados em quadros negros espalhados pelo salão.

Valle de Casablanca

Depois de Santiago, a próxima parada de 9 em cada 10 turistas no Chile é Valparaíso e Viña del Mar. Ambas cidades ficam na costa oeste do país, a cerca duas horas de carro de Santiago. Valparaíso é conhecida pelas casas coloridas espalhadas por uma encosta à beira-mar. Endereço de uma das casas de Pablo Neruda, famoso poeta chileno, foi capa de jornal recentemente devido a um grande incêndio que destruiu muitas das casas que tornam a cidade ponto turístico obrigatório no país. Viña del Mar é um balneário praiano que recebe a nata chilena nos verões. Com direito a belos restaurantes, um cassino e um museu com o único exemplar de Moai (aquelas estátuas em formato de cabeça feitas de pedra) fora da Ilha de Páscoa, é um recanto de veraneio e descanso.

Se hospedar em uma das cidades (eu fortemente indico Viña) abre espaço para visitar algumas das vinícolas do Vale de Casablanca. O vale, devido à proximidade com o oceano pacífico, é altamente influenciado por brisas frias, neblinas e geadas, que demandam dos produtores técnicas peculiares como, por exemplo, o uso de grandes hélices e helicópteros para fazer com que o ar quente se misture com o ar frio, reduzindo assim o impacto nas videiras. O resultado de tal geografia e clima é a produção predominantemente de vinhos brancos, minerais e frescos, e vinhos produzidos da casta Pinot Noir, reconhecida por amadurecer bem em climas frescos.

A primeira vinícola visitada foi a Casas del Bosque. Ao longo da viagem pelo país, acabei descobrindo que as vinícolas adotam uma arquitetura clássica, tradicional, lembrando grandes fazendas, ou uma arquitetura moderna, com bodegas que mais se parecem com um museu Guggenheim. A Casas del Bosque se encaixa no primeiro caso, com sua “casa grande” no centro do terreno e a bodega ao fundo. Devido ao pouco movimento (estive lá em março) acabei fazendo um tour particular. O guia que me acompanhou era novato, mas tinha os detalhes e particularidades da plantação e processo de produção bem memorizado. Pude visitar toda a área onde as uvas são prensadas, os tanques de inox, a adega de envelhecimento e o processo de colocação dos rótulos nas garrafas. Ao final, fui levado a uma sala recém construída e muito bem decorada para a degustação dos principais vinhos da vinícola. Como terminamos o tour na hora do almoço, ficamos pelo bistrô da vinícola onde pude repetir a degustação dos vinhos que mais gostei.

Alguns destaques da vinícola, de acordo com o Guia Descorchados:

  • Pequeñas Producciones S. Blanc 2013, 94 pontos
  • Pequeñas Producciones Syrah 2011, 94
  • Gran Bosque Cabernet Sauvignon 2011, 94

A segunda vinícola visitada foi a Matetic. Logo de cara, a arquitetura das instalações impressiona. A bodega, instalada no alto de uma colina, é imponente e mistura traços modernos, vidro, concreto e madeira. Ao longo do tour, descobre-se que a vinícola aplica técnicas orgânicas e biodinâmicas na produção de seus vinhos, mas, na minha opinião, o resultado não se mostrou nada surpreendente. Particularmente, achei os vinhos medianos. Em conversa com o dono e sommelier de um ótimo restaurante italiano em Viña del Mar (Divino Pecado, excelente comida, carta de vinhos espertíssima e preço bacana), recebi a sugestão: “o rótulo preto da Matetic é o melhor syrah do Chile”. Infelizmente ele não estava presente na degustação do tour, mas não resisti em levar uma garrafa para comprovar a afirmação. Ela continua na adega aguardando um momento especial… quando for degustada, ganhará um post especial aqui no blog.

Ao longo do tour na Matetic, fui apresentado a um aspecto interessantíssimo na produção dos vinhos chilenos. Muitas vinícolas criam suas bodegas de forma a utilizarem a gravidade para transportar o vinho ao longo de sua linha de produção, evitando assim o uso de bombas hidráulicas que, dizem os enólogos, “agridem” o vinho. A arquitetura vertical da bodega pode ser vista também em outras vinícolas pelo país, onde a recepção das uvas se inicia nos andares superiores das instalações e então toda a produção ocorre em um movimento vertical descendente, até chegar nos barris localizados na adega.

Bons rótulos da Matetic de acodo com o Guia Descorchados:

  • EQ S. Blanc 2013, 94 pontos
  • EQ Syrah 2011, 93
  • EQ Costal S. Blanc 2013, 93

Se ainda sobrar tempo para outras visitas enquanto estiver em Casablanca, duas outras grandes vinícolas são a Morandé, uma das precursoras no vale, e a Loma Larga.

Valle de San Antonio

No caminho de Viña del Mar para Colchágua, deu tempo para uma parada na vinícola Casa Marin, uma das poucas vinícolas do Vale de San Antonio. O vale possui duas regiões: ao norte, a região que dá nome ao vale e ao sul a região de Leyda. San Antonio, a região, é ainda sub-dividida em El Rosário e Lo Abarca. É nesta última que fica situada a Casa Marin, cuja bodega, escritórios e centro de visitantes fica em uma grande instalação lembrando uma fazenda. Fui recebido por um dos membros da família que me recebeu com muita simpatia, mesmo tendo chegado com mais de uma hora de atraso devido a uma “DR” com o GPS.

Ao longo da visita à vinícola, fui apresentado ao vinhedo e recebi uma pequena aula sobre o solo e sobre o clima que, como Casablanca, sofre grande influência do Atlântico. Da mesma forma que o vale vizinho, San Antonio produz belos brancos e tintos de uvas que gostam do frio, como a syrah e pinot noir.

“Gostaria de afirmar que o Chile pode produzir vinhos de alta qualidade. Nosso objetivo é posicionar nosso Sauvignon Blanc entre os melhores do mundo”, diz a proprietária e winemaker Maria Luz Marin na revista Decanter edição “World Wine Awards 2014″, onde o rótulo Cipreses Vineyard Sauvignon Blanc 2013 (DS 93) recebeu um Regional Trophy de melhor S. Blanc chileno acima de 15 libras. Para completar as premiações recentes, o rótulo Cosecha Tardia Riesling 2009 foi eleito o melhor late harvest do país pela Descorchados 2014, marcando 94 pontos.

Ainda de acordo com o Guia Descorchados, dois outros rótulos da casa foram bem pontuados:

  • Casona Vineyard Gewuztraminer 2013, 93 pontos
  • Miramar Vineyard Riesling 2012, 93

Valle de Colchágua

As maiores cidades do Vale de Colchágua são Santa Cruz e San Fernando, e ficam a cerca de 3,5h de Santiago e 4,5h de Viña del Mar/Valparaíso. Mas a viagem vale cada minuto gasto, cada quilômetro rodado. Colchágua é a região dos vinhos tintos amplos, maduros e potentes, lar de grande vinícolas como a Lapostolle, já citada no começo do artigo, Viu Manent, Casa Silva, Montes, Santa Helena, Errazuriz, Los Vascos e outras mais.

Antes de falar mais sobre a visita à três das grandes vinícolas da região, gostaria de compartilhar algumas dicas rápidas:

  • Fiquei hospedado no Bed & Breakfast Bellavista de Colchágua. Uma antiga casa da família da proprietária fora convertida em pousada que conta com poucos quartos e um lindo jardim com piscina. O lugar não é luxuoso e não é dos mais baratos, mas a experiência foi excelente.
  • Perto da pousada, encontrei o restaurante El Candil. Gostei tanto que voltei com amigos que fiz durante a viagem. A casa tem carnes preparadas de forma primorosa, um serviço excepcional e, principalmente, uma carta super esperta.
  • Nos primeiros dias de março acontece a Festa da Vindima de Santa Cruz, festival onde os produtores da região apresentam seus vinhos para o público. Como toda festa do interior, o evento é recheado de performances dos artistas locais e, como a festa de Santa Cruz é uma das maiores do país, é possível assistir a shows de artistas de renome nacional. Visitei Colchágua uma semana após a festa, o que naturalmente me deixou ainda mais com vontade de voltar. Se estiver indo à região no início de março, dê uma olhada no site www.vendimiadesantacruz.com e confira se é possível se organizar para estar na cidade durante a festa.

A primeira vinícola visitada em Colchágua foi a Viña Montes. Originalmente, visitar a Montes não estava nos planos de viagem, mas depois de provar o soberbo Montes Alpha Carménère no restaurante Divino Pecado (já citado lá em cima), tive que encaixar uma visita na agenda já apertada. A arquitetura da vinícola é belíssima, dentro do modelo super moderno. Aguardamos pelo tour no pequeno bistrô da vinícola, de onde partimos em um jeep aberto para um passeio pela plantação. Subimos a colina que fica ao fundo da propriedade, de onde é possível avistar parte do vale Colchágua e as propriedades vizinhas. De volta à bodega, fomos conduzidos a conhecer o processo de produção da casa. Quando estive na vinícola, a vindima ainda estava ocorrendo e, portanto, pude presenciar o recebimento das uvas que ocorre no terraço da construção. Após o desengace das uvas, elas entram por orifícios no chão, ou seja, no teto do último andar do prédio, por onde vão para o tanque de fermentação e, pelo processo de produção vertical por gravidade, seguem até os barris de maturação.

Durante a degustação do tour, pude conhecer o ícone Montes M 2004, um dos tops da vinícola, entre outros de menor quilates. Dois vinhos pontuados da casa, segundo o Guia Descorchados, são:

  • Outer Limits S. Blanc 2013, 94 pontos
  • Purple Angel Carménère 2011, 93

No dia seguinte, visitei as duas últimas vinícolas da viagem. A primeira do dia, a Viu Manent, se parece muito com uma grande fazendo do tempo do império. Após a recepção na “casa grande”, fomos de charrete até a bodega, onde pudemos degustar um dos vinhos da casa ainda no tanque de inox. Pude ver que a vinícola já se prepara para utilizar uma nova espécie de tanque feito de cimento e no formato de um grande ovo (havia ouvido falar neste tipo de tanque ao ler sobre o EGGO, vinho da argentina Zorzal). De volta ao centro de visitantes, realizamos a sempre esperada degustação, mas sem a presença do ícone da casa, o Viu One. Para não deixar a oportunidade passar em branco, mas respeitando as limitações orçamentárias impostas por uma garrafa de R$500, eu e um grupo de outros brasileiros que conheci durante a visitação dividimos uma garrafa do top chileno no restaurante da própria vinícola.

A última vinícola do dia, e da viagem, foi a Casa LapostolleDe longe foi a visitação mais atraente. A arquitetura do prédio principal é belíssima e os detalhes da produção são cuidados com esmero. Logo no início pude visualizar o recebimento das uvas tintas em uma pequena linha de produção contando com cerca de 50 mulheres, responsáveis por desengaçar as uvas e colocá-las em um esteira, onde recebem um banho de gás refrigerante, fazendo com que qualquer indício de fermentação antecipada seja paralisada antes do momento adequado. Pude acompanhar o movimento das uvas até os grandes tonéis de madeira, onde se inicia o processo de maceração de forma muito sutil, utilizando-se apenas uma haste para pressionar as uvas de tempos em tempos. Nenhum processo de prensa mecânica ou pneumática é utilizado. Após a fermentação, o vinho segue por dutos que ligam o pavimento de fermentação ao pavimento dos barris de primeiro ano e, em seguida, ao pavimento dos barris de segundo ano. Em todo o processo, utiliza-se apenas a gravidade pra levar o vinho de um estágio ao outro. Nada de bombas. É no último pavimento, o dos barris de segundo ano, onde degustamos alguns dos belíssimos vinhos da casa, incluindo o premiado Clos Apalta. A degustação ocorre sobre a entrada para a adega particular dos proprietários, onde milhares de garrafas se enfileiram despertando nossa imaginação: que segredos e tesouros são guardados em tão belo cofre?

Segundo o Guia Descorchados, são estas as boas pedidas da casa em 2014:

  • Collection El Silo Syrah 2011, 94 pontos
  • Collection Carménère 2011, 93
  • Cuvée de Alexandre Carménère 2011, 92

Fazendo um balanço das sete vinícolas visitadas, posso facilmente perceber que cada uma contribuiu de uma forma particular para o meu deleite e aprendizado. Enquanto somente a Concha Y Toro pôde proporcionar degustações de todos os seus ícones, na Casa Marin fui recebido e pude conversar com um dos membros da família, na Viu Manent degustei um vinho que só irá para o mercado daqui a alguns anos, na Montes e Lapostolle pude visualizar o recebimento e tratamento inicial das uvas, na Matetic aprendi sobre o processo de produção vertical e, finalmente, presenciei na Casas del Bosque como um Sauvignon Blanc pode ser frutado. No início, estava preocupado se tantas visitas não seriam demasiadas, se não seria uma perda de tempo. A resposta, hoje sei, é claramente não.