Champagne - conhecendo de perto as fantásticas borbulhas francesas

Alguns ícones históricos elevaram o Champagne a uma categoria única, destacando-o dos demais vinhos como uma bebida festiva, diretamente ligada a celebrações e sofisticação.

Dom Pierre Perignon marcou a descoberta do Champagne com a poética frase: “Venham rápido! Estou bebendo estrelas”.

Napoleão Bonaparte, menos poético, mas extremamente pragmático, cunhou a famosa “Nas vitórias é merecido, nas derrotas, necessário”.

Winston Churchill, de tão fiel às borbulhas, acabou nomeando o cuvée topo de linha da marca Pol Roger.

De fato o Champagne se encaixa na categoria de vinhos que chegam ao Brasil com um preço elevado, tornando-o escasso nas taças dos enófilos nacionais. Portanto, nada melhor do que ir in loco descobrir os encantos das borbulhas.

Primeiro dia – Champagne Drappier

Seguindo a dica do blog Conexão Paris, caí na estrada logo no primeiro dia na região e rumei para o sul, em direção à propriedade Drappier. Situada na cidade de Urville, vizinha a Troyes, demanda pelo menos duas horas na estrada saindo de Reims ou Epernay. Vindo de Dijon, ao sul, o Google Maps aponta 138km ou 1,5h de estrada. Mas, salvo se a sua agenda estiver demasiadamente apertada, a visita vale muito a pena. A história da propriedade Drappier remonta ao ano de 1152 e é hoje uma das maiores propriedades da parte sul da região de Champagne, uma área pouco visitada pelos turistas. A visita começa com um tour à cave da propriedade, onde são mantidas as safras antigas e as ainda em maturação. Em seguida, retornamos à sala de recepção onde degustamos cerca de cinco cuvées (rótulos):

A situação peculiar da visita foi a degustação acompanhada pelo atual dono e herdeiro da propriedade. O adjetivo peculiar fica por conta da completa incapacidade que tivemos para nos comunicarmos, visto que não falávamos francês e o Sr. Drappier, um educado e muito simpático senhor, com cerca de 70 primaveras na bagagem, nem uma palavra de inglês. Ficamos então repetindo o adjetivo “magnifique” taça após taça. Independente da pouca interação com o Sr. Drappier, fomos muitíssimo bem recebidos pelo resto do staff (que naturalmente falavam inglês).

Segundo dia – Moët & Chandon

No dia seguinte visitamos a globalmente renomada Moët & Chandon. Situada no centro de Epernay, mostra logo de cara que não estamos visitando uma família ou propriedade, mas sim adentrando um império corporativo. A empresa, que hoje faz parte do conglomerado LVMH, dona de marcas como Louis Vuitton, TAG Heuer, Givenchy e outras marcas de Champagne como, não se espante, a concorrente Veuve Clicquot, lhe recebe como se você estivesse visitando o escritório central de uma multinacional. Atendentes muito bem vestidas e treinadas colocam em operação seu discurso memorizado para lhe recepcionar da forma mais educada e política possível (mas não espere muito calor humano ou espontaneidade… isso não faz parte do protocolo). Após uma rápida aula de história sobre as famílias Moët e Chandon que, através do matrimônio de seus rebentos, chegaram ao nome familiar que conhecemos hoje, partimos para conhecer a cave da propriedade que se estende por quilômetros abaixo da cidade. Ouvi falar em cerca de 100km de caves, extensão formada pela conexão das caves de cada um dos diversos produtores da cidade. Ao final da visita, que dura cerca de uma hora, somos conduzidos a uma sala de degustação, ainda no subsolo da propriedade, onde é possível degustar os cuvées brutrosévintage brut e vintage rosé, dependendo do tipo de ingresso adquirido no início da visita.

Para quem deseja conhecer o mundo menos “celebridade” do Champanhe através da degustação de rótulos de alguns pequenos produtores, a C. Comme é uma ótima pedida. A loja é decorada com inúmeros detalhes, produtos e acessórios e fica convenientemente situada no centro de Epernay. Para quem está interessado em encher a adega, dezenas de rótulos, todos de pequenos produtores, se enfileiram no subsolo. Para quem apenas deseja conhecer um pouco mais da região, é possível degustar seis rótulos pré-selecionados, lado a lado, de forma a compararmos cada detalhe de diferentes terroirs, castas e métodos de produção. O lugar é agradável e os atendentes, bem espertos, dão uma aula sobre cada produtor. No momento da minha visitação, os seguintes rótulos estavam sendo servidos na degustação:

Terceiro dia – Veuve Clicquot

No terceiro dia da viagem visitamos a tradicional Veuve Clicquot. O estilo corporativo da propriedade é similar ao da Moët & Chandon, com um pequeno diferencial: a cor laranja onipresente nas instalações dá um ar mais jovial e descontraído ao ambiente. Após uma rápida explanação sobre os terroirs da região de Champagne, a treinada guia conta um pouco da história da La Grande Dame. Madame Clicquot revolucionou a indústria do Champagne no início do século XIX ao introduzir as técnicas de remuage e dégorgement na produçãoPara quem deseja saber mais sobre a história da Viúva Clicquot, o livro de Tilar J. Mazzeo conta em detalhes como, a partir do falecimento de Philippe Clicquot-Muiron, sua esposa Barbe-Nicole Clicquot Ponsardin se tornou “uma das primeiras mulheres a liderar um império comercial internacional, sob a marca Veuve Clicquot. Sem medo de arriscar a própria independência financeira, ela fez do produto que vendia um sinônimo de luxo e tornou-se uma lenda na França”. Em seguida, partimos para visitar a cave da propriedade cujas dimensões impressionam, tanto na extensão quanto no pé direito, que em alguns momentos nos fazem sentir em uma igreja, principalmente quando somos apresentados a um grande anjo de cerca de cinco metros talhado na parede de uma das sessões da gigantesca cave. Para quem realmente ama o vinho, é impossível deixar de se maravilhar com as inúmeras garrafas, de todos os tamanhos imagináveis e safras clássicas. Avistar uma Baltazar ou Matusalém da década de 50, empoeirada e deitada de forma serena e angelical, de fato mexe com a gente. De volta à recepção, somos conduzidos à uma sala de degustações/butique onde uma taça de Brut é servido. Em meio à inúmeros rótulos e apetrechos para venda, é possível estender a degustação e comprar uma taça de alguns vintages disponíveis (são poucas as opções) ou do cuvée prestige da casa, La Grande Dame.

Madame Clicquot revolucionou a indústria do Champagne no início do século XIX ao introduzir as técnicas de remuage e dégorgement na produção do champagne.

 

Algumas dicas sobre logística

Visitar vinícolas em Champagne em um day-trip a partir de Paris é uma ideia bem razoável, apesar de ser uma forma ultra-expressa de conhecer a região. Diversos pontos turísticos e, o que de fato nos interessa aqui, inúmeras propriedades tornam quase que obrigatória uma estada mais prolongada. Se possível, reserve pelo menos três dias na região e se perca nas borbulhas de sofisticação e sabor. Propriedades como Salon, Krug, Mumm, Louis Roederer, Pol Roger, Ruinart e Taittinger não vão deixar sua agenda vazia.

Reservar sua visita às vinícolas pela Internet é sempre uma excelente opção para evitar perder a viagem. Pelo que pude perceber, até mesmo na baixa estação, as visitas são sempre concorridas. Mesmo assim, se não for possível reservar com antecedência, procure pelo menos saber os dias e horários de visitação pela Internet, visto que eles variam bastante de vinícola para vinícola.

Dirigir pela região é muito fácil e conveniente, estacionamentos estão largamente disponíveis e um GPS te leva com precisão a qualquer lugar. Na minha opinião, esta é a melhor forma de utilizar com eficiência o tempo disponível, visto que o transporte público nesta parte do país demandará um tempo precioso. E o valor do aluguel de carro na Europa é bem convidativo. Porém, você naturalmente ganha um problema para ser gerenciado: se beber, não dirija. Se você tiver alguma companhia que não beba, ótimo, problema resolvido. Caso contrário, existe sempre a opção do taxi e serviços de transporte (que ficam a sua disposição durante todo o dia). Por fim, você pode ainda se restringir ao limite de álcool no sangue estabelecido pelo governo francês, o referente a uma ou duas taças de vinho, dependendo do seu peso.