Rolhas

Vou começar este artigo respondendo uma pergunta que ouço com frequência:

Tampa de rosca de metal é sinônimo de vinho ruim?

Não. A tampa de rosca de metal, cujo nome oficial é screw cap, é hoje largamente utilizada por vinhos produzidos para consumo imediato. Ou seja, é um método de vedação mais barato que a rolha e funciona com a mesma eficiência para aqueles vinhos que não serão envelhecidos por anos, décadas, vinhos que atingem seu melhor potencial para consumo de alguns meses a poucos anos.

Naturalmente, um dos aspectos que caracteriza um vinho excepcional é seu elevado potencial de guarda, alcançado por uma estrutura robusta, ou seja, acidez, álcool, açúcar ou taninos em níveis elevados. Portanto, vinhos vedados com screw cap são vinhos com estrutura mais simples, produzidos para consumo rápido. Muitos são vinhos excelentes, acima da média. Alguns são vinhos simples, mais baratos, para consumo cotidiano. Alguns lhe agradarão, outros nem tanto. Nada muito diferente dos vinhos vedados com rolha.

A rolha de cortiça

A rolha é de fato o método de vedação mais tradicional de todos. Atualmente, devido a escassez da sua matéria prima, a cortiça, pode alcançar elevado valor comercial. A rolha do tipo Flor, a rolha de melhor qualidade no mercado, pode alcançar o valor de €2 por unidade. No mercado europeu, onde bons vinhos chegam ao consumidor final por €1,50, uma rolha comercializada por este preço é de fato uma sofisticação.

Os principais tipos de rolhas de cortiça são:

Rolha Natural

Rolha inteiriça, feita de perfurações na cortiça retirada do sobreiro. Produto mais tradicional e também mais valorizado. Possui oito níveis de qualidade, baseados em critérios visuais e na quantidade e tamanho de suas ranhuras. Pode valer de €0,10 a €2. A rolha Flor, a de maior qualidade, costuma ser utilizada em vinhos premium, feitos para envelhecer.

Rolha Técnica 1+1

Possui corpo aglomerado feito com grânulos de cortiça, com discos inteiriços nas extremidades. Mais baratas do que as rolhas naturais, mas possui eficiência similar. Também possui diferentes níveis de qualidade.

Rolha Técnica Aglomerada ou Microgranulada

Feita exclusivamente de um aglomerado produzido da cortiça triturada que restou da produção das rolhas naturais e dos discos utilizados nas rolhas “1+1”. Esteticamente menos elegante e mais econômica, pode custar menos de €0,10.

Rolha de Espumante

Possui, na parte superior, aglomerado de grânulos de cortiça e, na parte inferior, dois discos inteiriços que, ao longo dos anos, se mostrou a forma mais eficiente para vedar os espumantes. A estrutura da rolha de espumante é a mesma, seja para os rótulos mais simples ou mais sofisticados.

Algunas detalhes adicionais sobre a rolha de cortiça

  • Um último tipo de rolha de cortiça é a rolha “T”, utilizada em vinhos fortificados como o Porto e o Jerez. Aspecto ímpar desta rolha é sua característica reutilizável, ou seja, ela é feita para que o vinho possa ser aberto e fechado diversas vezes.
  • A cortiça é extraída da árvore sobreiro, da mesma família do carvalho.
  • Portugal é hoje o maior produtor de cortiça, com 50% da produção mundial.
  • A região do Alentejo possui hoje 80% da plantação de sobreiros em Portugal.
  • O sobreiro vive cerca de 200 anos, seu primeiro descortiçamento acontece após 25 anos de vida e a partir de então cada ciclo ocorre a cada 9 anos.

Micro-oxigenação

Mesmo com o surgimento de alternativas (veja abaixo outros tipos de vedação), a rolhas de cortiça continua sendo a principal escolha para os vinhos de guarda, ou seja, para aqueles vinhos que se beneficiam do amadurecimento. Isso ocorre pela micro-oxigenação que só a cortiça é capaz de promover. Ela é capaz de permitir a entrada de uma quantidade mínima de ar na garrafa, ou seja, não veda totalmente mas também não permite a entrada de ar em excesso. E é esta quantidade mínima de ar, especificamente o oxigênio, que altera o vinho de forma suave, lenta e contínua.

Problemas ocasionados pelas rolhas de cortiça

O artigo Cheira Rolha descreve em detalhes o papel da rolha no vinho bouchonné, vinho comprometido por uma substância chamada TCA, desenvolvendo assim aromas desagradáveis de pano/cortiça/papelão molhado.

Quando o vinho é mal acondicionado, ou seja, mantido em local muito quente ou com pouca humidade, quando a rolha é danificada ou ainda quando possui algum defeito de fabricação, ela pode permitir a entrada de ar na garrafa em quantidade elevada, acelerando o processo de amadurecimento do vinho. Dependendo do nível de comprometimento da rolha, o vinho pode sofrer alterações que vão de modificações mínimas, não perceptíveis, até se deteriorar em alguns dias.

Uma rolha com a sua face externa manchada pode significar que o vinho esteja vazando. Se o vinho está saindo, quer dizer que o ar está entrando, ou seja, o vinho pode estar passando por um processo acentuado de oxidação e irá se tornar intragável em breve.

Outros tipos de vedação

Além das rolhas de cortiça e screw cap, três outros tipos de vedação podem ser encontrados no mercado:

 

Rolha Sintética

Produzida com composto plástico, possui a forma e aparência de uma rolha de cortiça. Opção mais econômica quando comparada com a rolha de cortiça. Possui o benefício de não contaminar o vinho com TCA (saiba mais em Cheira Rolha).

Rolha de Vidro

Possui um anel interno que cria uma vedação hermética. Possui um custo elevado, além de exigir operação manual, visto que os equipamentos tradicionais de vedação não são compatíveis com ela. Portanto, nunca chegou a ameaçar o reinado da rolha de cortiça.

Zork

Criada por uma empresa australiana de mesmo nome, veda como uma screw cap e é manuseada como uma rolha T. Pode ser aberta com as mãos (não é necessário abridor), através da extração de uma fita de fechamento.