A taça certa para cada vinho

Um exercício bem conhecido junto a apreciadores de vinhos é o de servir um vinho em diferentes taças, pequenas e grandes, bojudas e estreitas, finas e grossas, a fim de se avaliar se o vinho muda de sabor de acordo com o seu recipiente. Usualmente, faz-se tal exercício às cegas, ou seja, sem que o degustador saiba que se trata do mesmo vinho. O resultado frequentemente mostra que sim, o sabor do vinho muda de acordo com a forma como é servido. É verdade que a diferença é sutil, um bom vinho não se torna ruim por causa da taça onde é servido e vice-versa. Mas, para nós enófilos que tanto amamos os vinhos, utilizar uma taça adequada é um dos menores sacrifícios quando tal ação pode ajudar a aperfeiçoar qualquer detalhe do rótulo carinhosamente escolhido.

O formato da taça influencia nossa experiência pois altera a quantidade de compostos aromáticos que chegam ao nosso nariz. O benefício é duplo: mais prazer no olfato, pois nos deliciamos com mais aromas, e mais sabores na boca, afinal de contas, os aromas são responsáveis por boa parte dos sabores que experimentamos. Tecnicamente falando, as diferentes taças são desenvolvidas para aperfeiçoar a forma como os vapores de etanol carregam os compostos aromáticos até nosso nariz. As diferentes taças são planejadas para potencializar este efeito junto aos diferentes estilos de vinho.

A imagem ao lado faz parte de um interessante estudo que mediu, utilizando uma câmera capaz de captar os vapores de etanol, a forma como os compostos aromáticos chegam à borda de diferentes taças. A imagem mostra como a primeira taça, utilizada para drinks estilo Martini, e a terceira, um copo reto, concentram menos aromas em sua borda, enquanto que uma taça de vinho potencializa tal efeito.

Atualmente, é possível encontrar taças para vinhos específicos, como as taças da fabricante Riedel desenvolvidas para castas específicas (Cabernet Sauvignon, Tempranillo, Syrah, Pinot Noir do Novo Mundo, Pinot Noir do Velho Mundo etc.), regiões específicas (Brunello di Montalcino, Hermitage, Loire, Chablis, Alsace, Sauternes etc.) e estilos específicos (Bordeaux Maduro, Bordeaux Grand Cru, Tinto Reserva, Chardonnay Amadeirado etc.). Mas não vamos complicar! Apresentamos abaixo as taças para os principais estilos de vinho consumidos cotidianamente.

Taças para vinho branco

Vinhos brancos são, normalmente, servidos em taças menores, de forma a preservarem seus aromas florais, evitar que aqueçam e, visto que possuem aromas mais singelos, facilitar a sua captura reduzindo a distância entre o líquido e o nariz.

Vinhos brancos encorpados, como o Chardonnay amadeirado, vinhos brancos envelhecidos e vinhos laranjas, se beneficiam de um taça com maior volume e borda mais aberta, o que acentua a intensidade e complexidade dos aromas. O tamanho do bojo permite que o rico buquê aromático, característica dos vinhos brancos encorpados, se desenvolva ao mesmo tempo que minimiza o risco de se apresentar demasiadamente concentrado.

Taças para vinho tinto

Vinhos tintos são normalmente servidos em taças maiores, de forma a:

  • Aumentar a distância entre o líquido e o nariz, deixando o etanol, o álcool do vinho, mais longe das narinas e facilitando sua evaporação que, quando concentrado, agride o nariz e embaralha os aromas.
  • Facilitar a oxigenação do vinho, de forma a suavizá-lo e diminuir sua aspereza.
  • Facilitar o desenvolvimento total do buquê.

As taças de vinho tinto encorpado, altas e com volume elevado, focam na suavização dos taninos, de forma a tornar o vinho mais macio e redondo. Elas tendem a direcionam o fluxo de vinho para a zona da língua que distingue a doçura, acentuando assim o teor de fruta e reduzindo as qualidades amargas dos taninos.

As taças de vinho tinto com pouco corpo, que apresentam elevada acidez e taninos moderados, possuem bojo grande e uma menor distância entre o líquido e o nariz, de forma a facilitar a percepção dos aromas, mais sutis neste estilo de vinho tinto. Ao direcionar o fluxo do vinho para a zona da língua que identifica a doçura, acentua assim os elementos frutados e equilibra a elevada acidez. O bojo grande, permite a evolução dos aromas menos fragrantes.

Taças para espumantes e vinhos de sobremesa

Apesar de estarem presentes em nossas taças com menor frequência, os espumantes e vinhos de sobremesa, em especial o vinho do Porto, são tão peculiares e especiais que demandam protocolos próprios.

Iniciando pelo espumante, temos então a tradicional taça flute, longa de forma a permitir a apreciação das borbulhas em seu caminho da base da taça à borda. Porém, a flute vem saindo de cena e dando lugar à tulipa, taça igualmente longa porém com bojo mais largo. Este novo modelo de taça para espumantes favorece o desenvolvimento dos aromas, tão ricos especialmente nos champanhes. Portanto, se você ainda não tem um conjunto de taças para espumante em casa, fica a dica: a flute está fora de moda. A tulipa possui a capacidade de realçar todo o espectro de aromas e paladares proporcionados pelos requintados champagnes e vinhos espumantes e se torna quase obrigatória no caso dos champagnes vintage e cuvée de prestige, quando acentua a complexidade e a riqueza dos aromas.

Já os vinhos de sobremesa, tão menosprezados por muitos enófilos, representam um capítulo à parte no mundo dos vinhos. Vinhos como o Sauternes, Tokaji e Porto possuem histórias riquíssimas, frequentemente são alçados a melhor vinho do mundo, são capazes de amadurecer, literalmente, por séculos e alcançam valores astronômicos junto a colecionadores. Não é à toa que geram especificações particulares para um taça capaz de ressaltar seus atributos. Sua borda estreita é desenhada para ajudar a realçar os aromas que podem, por vezes, ser mascarados pela pungência do teor alcoólico. Os paladares frutados e adocicados são trazidos para primeiro plano e a acidez e os taninos são combinados em harmonia na boca.