Decifrando rótulos

Nome

Muitas vezes o nome do vinho é o próprio nome do produtor. Isso acontece frequentemente com vinhos do velho mundo, principalmente com vinícolas, pequenas ou grandes, com poucos rótulos em seu portfólio. No rótulo ao lado, Château Mouton Rotschild é tanto o nome da prestigiada propriedade de Bordeaux quanto do principal vinho produzido.

Nome

Já neste caso, o nome do vinho, Chryseia, aparece bem destacado do nome do produtor, P+S, uma joint venture entre os produtores Bruno Prats e a família Symington.

Nome

No caso de vinícolas com um extenso portfólio, como é o caso da Concha Y Toro, é raro encontrarmos um rótulo com o mesmo nome da propriedade. Praticamente todos os rótulos possuem um nome fantasia, como é o caso do famoso Don Melchor, topo de linha da vinícola.

Nome

Não é raro acontecer com vinhos ícones mundiais da fama do rótulo ultrapassar a da própria vinícola. Muitas pessoas conhecem o rótulo Barca Velha, ícone português, mas poucos o associam com a Casa Ferreirinha, seu produtor.

Produtor

Usualmente, o nome do produtor é um dos elementos mais destacados nos rótulos. Neste exemplo, o nome do produtor, Biondi-Santi, é o de maior destaque, só podendo ser confundido com a denominação Brunello di Montalcino. Quanto mais conhecimento acumulamos, mais fácil fica decifrar os rótulos, mesmo que através de exclusão. Neste caso aqui, se você sabe o que é um Brunello di Montalcino, fica fácil presumir que Biondi-Santi é o nome do produtor.

Produtor

Infelizmente, regras nunca são absolutas no mundo dos vinhos. Neste caso, o nome do produtor, o mesmo Biondi-Santi, é apenas o terceiro elemento de maior destaque no rótulo. Greppo, neste caso, é o nome da principal plantação da vinícola. Devido à excelência das uvas plantadas lá, o produtor deu preferência por destacar o nome da plantação ao invés de seu próprio.

Produtor

O nome do produtor pode ser encontrado nos rótulos com grande frequência, mesmo que de forma ligeiramente mais complexa, como no caso do Opus One, vinho ícone norte-americano. Neste caso, o vinho é fruto de uma joint venture entre um dos principais produtores americanos, Robert Mondavi, e o Chatêau Mouton Rothschild, representado aqui no rótulo pelo seu proprietário à época da concepção da parceria, o falecido Baron Philippe de Rothschild.

Produtor

Mas, de fato, a vida do jovem enófilo não é fácil. Em muitos casos, o nome do produtor não é apresentado nos rótulos. Mesmo em vinhos ícones mundiais, como o espanhol L’Ermita, de Álvaro Palacios, o nome do produtor só será encontrado nos minúsculos textos do contra-rótulo.

Safra

A safra, apesar de apresentada de forma diminuta em um canto do rótulo, é de grande importância, principalmente para um elemento que interessa a todos: o custo. Vinhos medianos possuem uma variação de preço pequena de ano para ano, mas vinhos ícones podem ter uma variação significativa, refletindo safras excepcionais ou medíocres. Como o caso do Chateau Latour, cuja caixa com 12 garrafas custa cerca de £23.000 (cerca de R$126 mil) na safra 1961 ou £2.700 (R$15 mil) na safra 1983.

Safra

Contrariando a máxima que o vinho melhora com o tempo, alguns são produzidos para serem consumidos jovem. Um grande exemplo é o Beaujolais Nouveau‎, vinho produzido em cerca de dois meses após a colheita, frutado, leve e fresco, concebido para ser degustado nos meses seguintes à produção. Ou seja, um Beaujolais Nouveau de dois anos de idade já ultrapassou seu maior potencial e já perdeu seus melhores atributos.

Graduação Alcoólica

Através da graduação alcoólica, podemos imaginar a estrutura do vinho que iremos degustar. A maioria dos vinhos se mantêm em uma faixa padronizada, o que nos leva a dar pouca atenção a este elemento do rótulo. Mas sempre existem algumas exceções, como é o caso do Amarone, vinho italiano conhecido por ser robusto, corpulento e alcoólico, usualmente atingindo os 15 graus de álcool.

Graduação Alcoólica

Um outro exemplo, agora no outro extremo, é o Vinho Verde português, que usualmente se mantém na faixa dos 10 graus de graduação alcoólica. O que esperar de um vinho com tal graduação? Um vinho leve, descontraído, para ser degustado em dias quentes, quem sabe na praia ou piscina.

Graduação Alcoólica

Os vinhos alemãs são muito peculiares pois apresentam um teor de açúcar elevado, diferente dos vinhos tradicionais mundo afora. A maioria não chegam a ser doce, pois o nível de acidez é igualmente elevado, gerando um equilíbrio agradável. Tal equilíbrio não acontece nos vinhos Trockenbeerenauslese (TBA), que são de fato doces. Feitos com uvas botrytizadas, têm sua fermentação interrompida na faixa dos 6-8 graus de álcool, fazendo com que muito do açúcar que seria transformado em álcool permaneça no vinho, gerando seu caráter adocicado.

Graduação Alcoólica

No caso do vinho do Porto, a fermentação também é interrompida, fazendo com que uma grande quantidade de açúcar residual forneça a sua tradicional doçura. Diferente dos vinhos brancos de sobremesa (como o TBA), a produção não para por aí. O vinho do Porto recebe em seguida uma dose de aguardente vínica, um destilado feito a partir de uvas, fazendo com que sua graduação alcance os 18-20 graus.

Volume

O volume padrão das garrafas de vinho é 750ml. Em alguns países europeus, este volume pode ser apresentado na escala de centilitros, ou seja, 75cl, o que é basicamente a mesma coisa. Também é possível encontrar garrafas de outros tamanhos, maiores e menores (veja no link abaixo alguns tamanhos padrões). Uma garrafa popular atualmente é a de 500ml, utilizada em alguns rótulos de Vinho do Porto e vinhos de sobremesa.
Tamanhos de garrafas

Denominação de Origem e Classificação de Qualidade

A Denominação de Origem é o elemento mais complexo do rótulo. Entender os AOC, DOC, DOCG, IGP etc., como o “Appellation La Tache Controlée” do rótulo ao lado, de fato não é tarefa fácil. O artigo “Terroir, Denominações de Origem e Classificações de Qualidade” lhe ajudará a se familiarizar com esta sopa de letrinhas.  
Terroir, Denominações de Origem e Classificações de Qualidade

Denominação de Origem e Classificação de Qualidade

Além das Denominações de Origem, as Classificações de Qualidade, como Grand Cru, Premier Cru, entre outras, também são elementos do rótulo que geram bastante confusão. Diferentes regiões utilizam diferentes termos e muitas vezes os mesmos termos não representam a mesma ideia. Uma vez mais, o artigo “Terroir, Denominações de Origem e Classificações de Qualidade” poderá lhe ajudar a entender melhor esta tradicional cultura do velho mundo.
Terroir, Denominações de Origem e Classificações de Qualidade

Casta

Muitas pessoas se perguntam porquê vinhos do velho mundo não apresentam a casta da uva no rótulo. Bem, é porque no novo mundo, representado aqui por este Malbec argentino, bebemos a casta e no velho, bebemos o terroir, a região, a propriedade. O artigo “Uva x Propriedade” esclarece mais sobre a questão. Não deixe de lê-lo.

Uva x Propriedade

Casta

Porém, mesmo em vinhos do novo mundo é possível que a casta da uva não seja apresentada no rótulo. Em muitos casos, isso ocorre por se tratar de um corte, também chamado de assemblage, ou seja, uma mescla de duas ou mais castas. No caso do Almaviva, ícone chileno, as castas cabernet sauvignon e merlot são utilizadas, o chamado corte bordalês, tradicional mescla utilizada nos vinhos de Bordeaux.

Mis en bouteille au château

Um vinho “feito e engarrafado na propriedade” significa que foi produzido por uma única propriedade, que plantou as uvas e produziu o vinho. Ou seja, é um vinho fruto de uma produção local e não de uma combinação de uvas e até vinhos prontos negociados por um négociant, comerciante que atua em apenas parte da produção de vinhos, às vezes comprando uvas de terceiros, às vezes comprando vinhos prontos para apenas engarrafá-los e comercializá-los.

Estágio em Barrica

Termos como Crianza, Reserva e Gran Reserva, em vinhos espanhóis, e Riserva e Classico, em vinhos italianos, remetem ao tempo que o vinho amadureceu em barricas, conferindo a eles uma maior qualidade. Estes termos são detalhados no artigo “Terroir, Denominações de Origem e Classificações de Qualidade”.
Terroir, Denominações de Origem e Classificações de Qualidade

Espumantes

Método Champenoise, tradicional ou Cap Classique (utilizado na África do Sul) refere-se ao método de fabricação utilizado na elaboração do Champagne, onde as borbulhas nascem de uma segunda fermentação realizada na garrafa. Muitos espumantes mundo à fora utilizam este mesmo método, que não é exclusivo apenas do Champagne. Um outro método, utilizado, por exemplo, para produzir o Prosseco, é o Charmat ou tanque. Nele, a segunda fermentação ocorre em um tanque pressurizado e não na garrafa.

Espumantes

Alguns termos utilizados nos rótulos dos espumantes estão relacionados ao seu nível de doçura. O espumante Brut, mais largamente encontrado no mercado, possui um nível de doçura mediano, podendo conter de 0 a 12g de açúcar por litro. Outros níveis de doçura são: Brut Nature, ou Brut Zero (0 a 3g/l), Extra Brut (0 a 6g/l), Extra Dry (12 a 17g/l), Dry (17 a 32g/l), Demi-Sec (32 a 50g/l) e Doux (acima de 50g/l).

Espumantes

Você já reparou que a maioria dos espumantes não apresentam a safra no rótulo? Isso acontece pois os espumantes mais simples de cada vinícola são produzidos através de um corte de diversas safras, de forma a tornar o seu sabor padronizado. Ou seja, não interessa o quão boa ou ruim foi a atual safra, o espumante terá sempre o mesmo sabor. Por isso, grande parte dos espumantes são chamados de non-vintage, ou seja, não safrado.

Espumantes

Porém, em anos excepcionais, produz-se o espumante apenas com as uvas de elevada qualidade daquele ano. São os chamados espumantes Vintage, que naturalmente possuem qualidade (e preço) superior.

Espumantes

O espumante, assim como qualquer vinho branco, pode ser produzido a partir tanto de uvas brancas como tintas, basta que para isso a casca da uva tinta não entre em contato com o suco. Espumantes produzidos apenas de uvas tintas recebem o nome de Blanc de Noir (algo como Branco de Tintas), enquanto que os produzidos apenas de uvas brancas recebem o nome de Blanc de Blancs (Branco de Brancas).

Espumantes

Um termo que intriga alguns jovens enófilos é o Cuvée. Frequente em espumantes (principalmente o Champagne), mas também encontrado em outros tipos de vinhos, significa um corte diferente do tradicional, algo como uma “receita” especial, um vinho diferenciado. O termo cuvée não está necessariamente associado a um vinho de melhor qualidade, apenas representa um vinho diferente do usualmente produzido pela vinícola.